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Episódio VIII – DNF in Berlin

12AGO2017 100 Milhas de Berlim, Did Not Finish aos 91km


Pronto. E se fossem para a grande puta que vos pariu?

No planeamento para esta prova apenas tinha considerado ter dois sacos com muda de roupa e outros itens que iria necessitar, um aos 71km e o outro aos 103km. Mas com a possibilidade de chuva para o dia da prova, principalmente durante a manhã, decidi usar também o saco na primeira base, aos 34km. Poderia dar jeito ter ali roupa seca. Poderia.

Quando cheguei a essa primeira base, completamente ensopado, pois a possibilidade de chuva tinha-se concretizado num dilúvio praticamente desde a partida, fiquei estupefacto – então não é que aqueles caralhos tinham colocado todos os sacos dos participantes a céu aberto e claro que tudo lá dentro estava encharcado? Nem me dei ao trabalho de mudar de roupa.



Só o nome tem uma aura especial “100 Meilen Berlin – Der Mauerweglauf”, numa tradução literal, “100 Milhas de Berlim – A Corrida do Muro”. Esta prova tem a minha cara. Tinha tudo para dar certo.


A prova consiste em fazer o percurso circular original por onde passava o Muro que isolava Berlim Ocidental da parte Oriental da cidade, bem como tornava parte da cidade um enclave da República Democrática Alemã. Para lá dos vestígios que ainda existem do Muro, por todo o percurso existem placas indicativas, com a particularidade dessas placas estarem colocadas na altura que o Muro original tinha em cada momento. Todos os anos a prova homenageia uma vítima das que morreram a tentar atravessar o Muro e em cada ano muda o sentido da prova, ou seja, num ano é no sentido dos ponteiros do relógio, no outro é no sentido inverso.

Prova que alia corrida com História, numa cidade incrível (que nunca tinha visitado), uma distância mítica (depois de treinos de 100km e uma prova de 144km, seria o corolário enquanto ultramaratonista), praticamente plana…. Tinha tudo para dar certo.


Uma preparação de 25 semanas (quase) sem mácula. Duas provas acima dos 50km com excelentes indicações, um treino de 100km épico, rodeado de pessoas fantásticas que puxaram sempre por mim, inclusive na partida no aeroporto e durante a prova. A confiança nos píncaros. Tinha tudo para dar certo.



As duas semanas antes da prova foram a nódoa no melhor pano.

Primeiro, oito dias no Algarve, onde para além de não descansar o que devia (estiveram dias muito quentes e dormir foi um problema), exagerei em alguns treinos quando deveria estar a levantar o pé, bem como também facilitei na alimentação e bebida.

Depois e já em Berlim, por estar em família e em modo turistas, o descanso final foi muito negligenciado. As duas últimas noites então foram um desastre, com a prova a começar às 6h da manhã.


Mentalizei-me, praticamente desde que me inscrevi, nove meses antes da prova, que esta seria totalmente citadina. Com uma dose generosa de burrice, considerei que dentro de todo o perímetro dos 162km estava apenas a cidade de Berlim. Ora se o próprio Muro dividia a cidade em duas…

Em 2017 a prova efetuou-se no sentido contrário aos ponteiros do relógio, sendo que ao fim de uma dúzia de quilómetros para norte, o percurso sai da cidade, de uma zona já não propriamente apelativa, para entrar numa paisagem quase continua de floresta. E quando não estávamos no meio de milhares de árvores ou campos a perder de vista, apareciam pontualmente zonas residenciais em que não se via praticamente ninguém. Percebi, só depois, que a passagem nas partes mais emblemáticas da cidade só ocorre nos últimos 20km, ou no caso de ser feita no sentido inverso, nos primeiros 20km. Ou seja, não é uma prova de cidade, mais parece um trail, mas sem altimetria. É uma prova cujo percurso na sua maioria lembra a monotonia do que são os quase 40km entre a Azambuja e Santarém, nos Caminhos do Tejo.



O dia da prova foi o total anticlímax depois de semanas ansiando que chegasse.

Apesar de estar “casa cheia” (o limite são 500 atletas individuais, com as inscrições a serem preenchidas em pouco tempo), talvez por culpa do dia muito feio que estava, o ambiente não era de festa. Isso e o facto da grande maioria dos inscritos ser de nacionalidade alemã, pessoas que pude constatar durante esses dias serem, por norma, pouco expansivas. O único participante com quem interagi foi um japonês que achou boa ideia fazer a prova mascarado de Homem-Aranha…



Apesar de ter passado doze horas metido na prova, não tenho muito para contar para além do já referido. Floresta, floresta e mais floresta. Abastecimentos muito frequentes (em média a cada 8km) mas demasiado parcos, sem comparação possível com o que estamos (muito mal, nesse dia tive a certeza) habituados por cá. O inenarrável episódio da “sopa” ao km61 diz tudo… “Sim, temos sopa!” diz uma voluntária muito alegremente, apontando para uns termos no canto do abastecimento, que quando abri, só tinham água morna. Ela percebeu o meu ar incrédulo, mas sempre sem parar de sorrir, serve-me um copo, plástico, dessa água, e de seguida despeja uma colher de um pó para dentro do copo e diz “Aqui está a tua sopa!”. Obviamente nem lhe pus os beiços. À sopa, claro. (Na voluntária do abastecimento também não).



Tinha tudo para dar certo? Tinha, mas não deu. Desisti pela primeira vez numa prova. E ao contrário do que sempre pensei, quando e se chegasse o dia de desistir, não me custou (muito).

Por muita culpa que eu tenha colocado na organização (que a teve), todo aquele dia foi o culminar de uma série de equívocos, de más decisões, de excesso de confiança.

Eu nunca acreditei no “Desistir não é uma opção”. Sim, é. E, às vezes, a melhor opção. Como ainda hoje considero que naquele dia foi.

Como alguém me disse por mensagem nesse dia: “Parabéns. Só és um verdadeiro ultra depois do teu primeiro DNF”.


As fotos são todas minhas, da prova poucas pois não havia muto mais para mostrar e com o passar dos quilómetros a motivação para fotografar desapareceu.

Já Berlim é um assombro, recomendo vivamente visitar e explorar.



#corrida #ultramaratona #100meilenberlin #dermauerweglauf #berlin #germany


Cascata de Fervença

Vou partilhar histórias. De provas, claro, mas também de muitos treinos, até porque às vezes é nestes que surgem os melhores momentos, a solo ou com fantásticas companhias.

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