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Episódio VII – Ultra no Centro de Portugal

12MAR2016 Território Centro Vila de Rei 65km


Fome. Estou cheio de fome!

Levo 6h30 de prova quando ultrapasso, pela primeira vez desde que corro, a barreira da distância da maratona. E estou muito longe de viver um sentimento de superação, de orgulho, de conquista. Nada disso. São três da tarde, estamos no pico do calor de um dia de março que até tinha começado fresco, ali vou a passo numa subida que parece interminável e só penso em comida. O animal primitivo que tens dentro de ti, que tantas vezes aparece nestas situações, rugia de fome – e se não o alimentasses, provavelmente terias de desistir.



Quando no final de 2015, após a participação na Maratona de Nova Iorque, decidi que o passo seguinte seriam as ultras maratonas, comecei a procurar informação que me ajudasse a preparar o principal desafio de 2016 – correr no dia do meu quadragésimo aniversário a Ultramaratona Caminhos do Tejo (UMCT), 144km entre Lisboa e Fátima.

Das dúvidas que tinha, como desenhar um plano de treinos ou de como iria reagir à privação do sono, a que mais me preocupava era a comida. Como é que estamos tantas horas em movimento e nos alimentamos sem deitar tudo cá para fora assim que voltarmos a correr? É que Zach Miller só há um… (vídeo no CP6 do MIUT de 2016)




Como se pode ver na introdução, estava metido no meio da minha primeira ultra (Circuito Território Centro – Vila de Rei 60km+) e a parte da alimentação estava claramente a falhar. Até essa prova levava 38 treinos na preparação para a UMCT, que se realizaria em junho, e a verdade é que nem no treino mais longo feito até então (42,65km) eu tinha dado muita importância à alimentação. Nos treinos acima de duas horas, tentava ingerir um gel ou uma papa de fruta, daquelas para bebés, a cada hora, mas nem sempre cumpria e para esta prova em Vila de Rei, um ultratrail, confiei em demasia na fama de verdadeiros banquetes que muitas organizações colocam nos abastecimentos.


Vila de Rei é uma vila no distrito de Castelo Branco que dá nome a uma das etapas de um circuito de ultratrail no Centro de Portugal, daí o nome “Circuito Território Centro”. Este circuito em concreto já não existe, mas a Horizontes continua a organizar algumas provas emblemáticas no panorama da ultradistância, da qual uma das minhas provas fetiche, a PT281+.

Adicionalmente é no concelho de Vila de Rei que fica o Centro Geodésico de Portugal – nada me parecia mais apropriado para a minha estreia em ultramaratonas.


Na partida da prova, não poderia estar mais bem acompanhado, com o meu amigo e colega Paulo Santos , que também estava a preparar a UMCT e também nesse dia se iria estrear em ultras. Além disso alguns dos longos até ali também tinham sido feitos na companhia dele.

São tantas as aventuras com ele, que um dia lhe dedico um episódio só dele.


A prova começou com 4kms sempre a subir e logo até ao ponto mais alto de todo o percurso, no Picoito da Milriça, onde está situado o referido Centro Geodésico – tal como em outros locais onde passei nesta prova, e em muitas outras depois, talvez o maior aliciante dos ultratrails são os locais que, não estando escondidos, muitas vezes descobrimos pela primeira vez. Nessa subida separei-me do Paulo, não tínhamos combinado seguir juntos.





Entre o km14 e o km15 estava o primeiro abastecimento e foi então que bati de frente com o problema da alimentação: com exceção do penúltimo abastecimento em Água Formosa, todos os outros foram mais fracos do que esperava, não é que não existisse quantidade, mas foi sobretudo a qualidade dos mesmos, considerei uma desilusão não existirem produtos locais e sobretudo fez-me muita falta o pão, pois colocar pão de forma, queques e daquelas coisas recheadas com chocolate tipo bollycao, tudo industrial é uma pena. Como referi, a minha gestão de alimentação durante a prova contava com os abastecimentos e recorrendo quase em exclusivo à fruta dos abastecimentos, e aos géis que levava comigo, a fatura disto veio a pagar-se mais à frente.


Felizmente entre os abastecimentos íamos passando por paisagens fantásticas. Em determinado momento, descíamos um troço paralelo a um pequeno rio, até que tivemos de o atravessar para a outra margem e quando foi para regressar ao outro lado, tivemos de fazer o designado Escorrega do Escalvadouro – estão a ver os escorregas dos parques aquáticos? Este é na natureza e adorei descer, na minha cabeça fi-lo tão rápido como o tipo de casaco fluorescente.



Já quase a chegar ao terceiro abastecimento, que estava pouco depois do km36, próximo do Penedo Furado, deparámo-nos com mais uma área de beleza fantástica, com destaque para a Fonte Cristalina Bica Negra – aqui fica uma vista panorâmica desta área.


Mas o cansaço acumulado e a alimentação deficitária levaram a melhor e comecei a desenvolver a ideia de que se calhar não era capaz de terminar a prova. Os últimos quilómetros antes de Água Formosa, onde estava instalado o penúltimo abastecimento, foram muito penosos e eu só esperava que se concretizasse o que me disse um companheiro de prova, que aquele seria um abastecimento diferente dos outros.


Água Formosa é uma das 27 Aldeias do Xisto distribuídas pela Região Centro do País e é um sítio lindíssimo – que não consegui apreciar, pois cheguei ali num estado lastimoso, com a ideia de desistência da prova mais do que consolidada na minha cabeça.

Só que este abastecimento estava verdadeiramente fantástico, com produtos caseiros dos quais destaco o caldo verde, a chouriça, a broa, uma fantástica limonada e os bolos acabadinhos de fazer! Comi e bebi muito bem e renasci, quando saí de Água Formosa já nem punha em causa que iria finalizar a prova!


O único ponto negativo deste abastecimento foi ficar a saber por um companheiro de corrida que o Paulo tinha ficado para trás (ele apanhou-me sempre nos outros três abastecimentos), pois logo a seguir ao terceiro abastecimento tinha começado com dores num dedo de um pé e teve de baixar o ritmo. Não lhe telefonei, mas se calhar isso também não teria ajudado…


Saí, pois, de Água Formosa com uma alma nova e mesmo sabendo que ainda faltavam quase 20km até à meta, encarei esta etapa final muito confiante e lá segui calmo. Fiz os primeiros 2 km desse segmento sozinho até que alcanço dois companheiros de corrida com quem fui durante algum tempo, sendo que um deles, o Carlos com quem fui até à meta, um senhor de 65 anos (em 2016) que reside em Alverca e que tem uma larga experiência de provas, tanto de estrada como de trail, apesar de “só” ter feito a sua primeira maratona aos 52 anos… E estava ali fresquíssimo, sendo que há duas semanas tinha feito os 50km do Terras de Sicó! Nesta fase íamos puxando uns pelos outros, quando havia subidas mais acentuadas andávamos, quando dava para correr era o que fazíamos, podem ver um vídeo que fiz ao km58, com quase 10h de prova, quilómetro esse que fizemos a um estonteante ritmo de 6:18!



Antes da meta sabíamos que ainda haveria um último abastecimento, em Poios; o que não sabíamos era o que a organização nos tinha guardado para o fim, pois o quilómetro antes e os restantes 3,7km depois do abastecimento foram duríssimos e de corrida tiveram muito pouco, pois tanto a descida para e a subida depois do referido ponto de abastecimento mais pareceram escalada, com muitos pontos em que tínhamos de progredir agarrando-nos a cabos de aço fixados às rochas para não cairmos. Que eu saiba não aconteceu nenhum acidente e ainda bem, mas este tipo de progressão não é para mim, um pé mal colocado ou uma falta de reflexos e uma queda nestas situações pode ser muito perigosa, para mais numa fase final de uma prova desta dimensão em que os participantes já estão muito longe da sua melhor condição. É verdade que os sítios por onde passámos nesta fase são lindíssimos e que muito provavelmente não haveria outra forma de lá passar, mas na minha opinião este tipo de obstáculos a existirem numa prova, devem ser colocados numa fase mais próximo da partida do que da chegada.

E pronto, mais de 10h30 depois da partida lá chegámos à meta, já de noite e ainda tendo sido necessário recorrer aos frontais.

Finalmente sou ultramaratonista!

Após a chegada ligo para o Paulo para tentar saber dele e aí aconteceu a última grande surpresa do dia; não é que ao ouvir o som de chamada no meu telefone, ouvia ao mesmo tempo um telemóvel a tocar muito próximo de mim? E que quando a pessoa que atendeu esse telemóvel, ela estava a falar comigo? Desliguei e perguntei a essa pessoa, da organização da prova, onde é que tinham encontrado aquele telemóvel, ao que me respondeu que o tinham apanhado perdido no percurso. Expliquei a quem pertencia e deixei recado para o Paulo me contactar quando chegasse à meta, pois sabia que nem que fosse a rastejar ele acabaria também a prova. Uma vez que a alimentação na meta era idêntica aos abastecimentos durante a prova (infelizmente não igual ao de Água Formosa), dirigi-me à Albergaria D. Dinis onde tinha pernoitado e tinha deixado ficar o carro, mudei de roupa, comi uma bela sopa de peixe e um prego fantástico, bem acompanhado de duas cervejinhas e quando estava quase a acabar liga-me o Paulo! Estava vivo e tinha chegado, pelo que lhe disse para ir ter comigo, onde comeu o mesmo que eu e ainda deu para brindar a esta nossa grande aventura e àquelas que ainda estão para vir!



As fotos são todas minhas, os vídeos também, com exceção do Zach Miller (organização do MIUT) e do Escorrega do Escalvadouro (da Horizontes).



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