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Episódio VI – Admirável mundo (da corrida) novo

Com a entrada na Avenida Ribeira das Naus, passamos a correr com espaço, mas também praticamente sem público. Vamos lá então a isso, estou na minha primeira prova desde há mesmo muitos, muitos anos, a primeira na idade adulta. Para o que ia? Experimentar a sensação e acabar o mais rápido que conseguisse!

O terceiro quilometro foi o mais rápido, fazemos o retorno próximo do Museu do Fado, já na Avenida Infante Dom Henrique, ao km4 guinada à direita para a Praça do Comércio, seguida da Rua da Prata. Não metemos o Rossio na Betesga, mas aí temos novamente mais assistência, apesar do apoio audível ser pouco.

Próximo de passarmos novamente junto à linha de partida, estamos a meio da prova – vinha aí a subida da Avenida da Liberdade.




Fim da tarde do dia 24 de julho de 2012. Estou de volta ao Hospital da Luz em Lisboa para ouvir o veredito da médica. Ia ser terrível, de certeza, senão não tinha feito tanto exame, prova de esforço incluída. Análises, ecografias, raio-x, eletrocardiogramas, Holter 24 horas… sei lá mais o quê. Que porra, dois filhos pequenos para ajudar a criar e entrevado para o resto da, provavelmente curta, vida.

“Olá Zé Alexandre!” saúda-me a médica. Só três pessoas, ela incluída, me trataram assim em toda a vida. Ainda hoje o faz.

“Então doutora?”, pergunto eu, com ar derrotado. “O que é que eu tenho?”.

Estava preparado para tudo, pelo menos pensava que sim. Mas não para aquilo. Aquela simples palavra, assim a seco.

“Nada” – responde a médica. “Você está bem para a sua idade”. Desculpe?

Pois, isto não é mais um daqueles incríveis relatos de superação. De alguém que venceu uma doença terrível ou emagreceu uma batelada de quilogramas. São antes as memórias, as impressões, de alguém que no final desse verão de 2012 começou a correr com uma frequência que nunca tinha tido em nenhuma atividade física. “Apenas” para ter um escape, aquilo que a médica sugeriu no final da consulta – arranjar algo que ajudasse a descomprimir do dia a dia pessoal e profissional.

Que como milhões de corredores em todo o Mundo foi assistindo e apreciando a sua evolução. Que foi descobrindo mais, procurando publicações no Facebook, seguindo blogues, lendo livros. Ao mesmo tempo que corria e foi conhecendo cada vez mais pessoas com a mesma paixão. Verdadeiras amizades, nascidas e criadas com as sapatilhas calçadas.

Vou partilhar histórias. De provas, claro, mas também de muitos treinos, até porque às vezes é nestes que surgem os melhores momentos, a solo ou com fantásticas companhias.


Obrigado por correrem comigo.

Desde o dia 4 de setembro de 2012, até aquele início de noite de dia 29 de dezembro tinha feito 36 treinos. Fazer provas nem sequer era um objetivo, mas um amigo e ex-colega do El Corte Inglés perguntou-me se queria um dorsal para a São Silvestre de Lisboa. Ainda bem que aceitei, pois muito provavelmente aquela prova foi o empurrão definitivo para nunca mais deixar de correr.


Lá ia eu, muito concentrado na prova. Venha a subida da Avenida da Liberdade. Respiração ofegante, ritmo mais lento pois estava próximo do limite da capacidade física.

Ao contrário do atual percurso, o retorno definitivo para a meta não era no Marquês de Pombal. Não, ainda se subia mais, a Fontes Pereira de Melo, em direção ao Saldanha. Estamos com cerca de sete quilómetros e meio e agora é sempre a descer!

Aí vai ele, finalmente a gozar a prova. “Foda-se, isto é mesmo fixe!”.



Sempre a dar gás por ali abaixo, passamos novamente no Marquês e apesar do pouco público na lateral da Avenida, isso agora já não interessa.

A meta está cada vez mais próxima, vamos lá deixar o resto da energia!

Passo a meta. Vejo o tempo no cronómetro do pórtico, sou novato mas sei que aquele não é o “meu” tempo. Como muito iniciantes (e vim a descobrir, como muitos veteranos) não usava relógio e quando vou terminar o exercício na app Endomondo instalada no telemóvel, vejo que tinha acontecido um problema qualquer e o telemóvel estava desligado – mais tarde ao descarregar, vi que “só” tinha contabilizado 8,75km. Nunca corrigi isso.



Recebi a medalha e o saco. Feliz da vida, e porque ainda não conhecia ninguém neste mundo, fui direto para o metro. Tinha acabado de conquistar o meu primeiro Personal Record. E embora os “recordes” sejam importantes (todos gostamos de melhorar, certo?), para o caso prefiro de longe outros significados da palavra inglesa “record” – tinha o meu primeiro de muitos registos. De apontamentos. De testemunhos.



As fotos são de 2012, da organização da São Silvestre de Lisboa e minha, aquela já na estação de metro dos Restauradores, ainda com o dorsal e com a medalha ao peito.



#corrida #saosilvestredelisboa #hmssports