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Episódio V – A primeira ultra (para a vida)

Assim que passo a linha de partida na Praça dos Restauradores, finalmente posso começar a correr. O mais depressa que conseguia naquelas condições, pois tendo partido tão lá atrás, os quase dois primeiros quilómetros são um ziguezaguear constante entre os outros corredores, enquanto avançava para o Rossio, depois Rua do Ouro e Rua do Arsenal.

Apesar do perigo de queda que senti por diversas vezes, naquele emaranhado gigante de pernas, também foi por aquele início de prova que senti que a paixão da corrida tinha vindo para ficar – pois mesmo sem o brado de outras assistências, por exemplo com a prova homónima da Amadora, as gentes que viam passar os corredores da São Silvestre faziam-nos sentir de alguma maneira especiais. E quem nunca se inebriou pela motivação que vem da assistência numa prova?



Só que até aquele momento no final do ano de 2012, muita água correu por baixo das pontes e a corrida não existia.

No início de 2005 mudo de empresa, sendo que em termos profissionais foi uma mudança de 180 graus, pois num ramo de negócio completamente distinto fui buscar aquela dose adicional de dedicação, com os dias de trabalho muitas vezes a ultrapassarem a dezena de horas. Adicionalmente em 2006 mudo também de casa e o acréscimo de espaço e condições, sobretudo de lazer, só era aproveitado ao fim de semana, já que num dia normal, cerca de 1h30 era passado no trânsito ou transportes públicos de e para o trabalho…

E por muito que a corrida se consiga encaixar em qualquer parte do nosso dia, a verdade é que na altura eu não tinha essa disciplina ou sequer vontade.

O desporto resumia-se ao futebol, durante algum tempo ainda de cinco, para posteriormente ter passado para a vertente de sete jogadores por equipa.

O auge de jogos e diversão ocorreu nos anos de 2007 e 2008, em que um grupo de cerca de 15 amigos decidiu que, para além do jogo semanal que fazia no campo da Escola Secundária Padre António Vieira em Alvalade, se devia aventurar numa liga de futebol amador organizada por uma empresa que dava uso comercial aos campos sintéticos instalados em escolas da Grande Lisboa – fui pesquisar e atualmente essa liga ainda existe, entre as diferentes vertentes de futebol (7, 5 e futsal), em mais de 30 cidades de norte a sul do país. Para os anais da história, fica o nome dessa memorável pandilha: a F.U.F.A.



Intermitentemente com o futebol, ainda frequentei dois ginásios, um mesmo à porta de casa (entre 2003 e 2004) e outro já após a mudança de trabalho, durante cerca de um ano entre 2005 e 2006 – este segundo com a relevância de ser dentro do Estádio do Sport Lisboa e Benfica.

Nunca fui fã de ginásios (e só lhes voltei a dar a derradeira hipótese durante 3 meses em 2016, mas fica para outra ocasião), mas aquele na Catedral além de ótimas condições, tinha a particularidade de podermos treinar com vista para o relvado. E na quarta-feira de cada semana podíamos inclusivamente fazer um treino de corrida à volta do relvado! Mas mesmo assim, entre o trabalho e a indisciplina para treinar, lá acabei também por deixar o ginásio.



Até que em 2010, logo no início, dá-se a maior mudança de toda a minha vida, a tal primeira ultra e para a vida – o nascimento dos gémeos M&Ms.


Por muito que te vás mentalizando que a tua vida nunca mais vai ser igual, só quando estás no meio daquele turbilhão é que percebes: “Foda-se, mas o que é isto???”.

Mesmo sendo, felizmente, duas crianças saudáveis, os primeiros dois anos… Toda a tua energia era drenada. A paternidade, e a maternidade, são muito, muito exigentes. A felicidade e o amor incondicional que vêm nesse envelope são proporcionais ao trabalho, à dedicação, à exigência que tens de pôr enquanto Pai ou Mãe - sei que parece algo "frio", mas prefiro ser pragmático e colocar em igualdade estes dois pratos da balança, do que ser um daqueles pais que só o são para os bons momentos.

Foi pois "normal" que quase não houvesse tempo para jogar futebol. Também não havia ginásio, nem queria. Correr? Sim, era "correr" entre casa e o trabalho, os miúdos a crescer e os desafios a crescer com eles.



E então, no fim de junho de 2012, 36 anos acabados de fazer, um dia a subir dois andares pelas escadas no edifício do trabalho, dás por ti todo ofegante, com algum peso a mais e pensas “Tu queres ver?!” – tinha alguma coisa grave, de certeza.

Consigo marcar logo para a semana seguinte uma consulta de medicina familiar e a médica, na ausência de sintomas concretos de algo e também sem qualquer historial meu (nem sequer me lembrava ou tinha as últimas análises que tinha feito), marca-me uma bateria de exames. Eram tantos que os agendei todos no mesmo dia, 16 de julho, uma segunda-feira, e tirei um dia de férias para ir descobrir a doença que estava a acabar comigo. Era sagrado como o destino.

Cascata de Fervença

Vou partilhar histórias. De provas, claro, mas também de muitos treinos, até porque às vezes é nestes que surgem os melhores momentos, a solo ou com fantásticas companhias.

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