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Episódio IV – Trabalhar em Lisboa

Num dia cinzento de inverno, como era o caso daquele no fim de dezembro de 2012, parece que nunca chega verdadeiramente a ser dia, mas foi quando as iluminações de Natal da Avenida da Liberdade se acenderam e os milhares de participantes na São Silvestre de Lisboa começaram a chegar que finalmente acordei daquele torpor – estava quase acontecer, ia fazer a minha estreia em provas de atletismo! Só aí comecei a sentir pela primeira vez as famosas “borboletas” na barriga, aquele estado de ansiedade (boa) pelo tiro de partida, a vontade louca de arrancar…

Faltam três minutos… dois minutos… um minuto… 5, 4, 3, 2, 1… Nada?! Nada. São 17h30 e estou parado, quase tão entalado como numa carruagem de metro em hora de ponta. Finalmente lá começamos a andar, e depois num ligeiro trote, em direção à linha de partida e durante aqueles 137 segundos, que representam a diferença entre o meu tempo oficial e o tempo de chip, eu só pensava: “Mas vou fazer os 10km todos assim?! Ai o caralho…”.



E quando dás por ti, tens 23 anos acabados de fazer, chegaste ao fim dos cinco anos de duração da tua licenciatura mas ainda não tens o canudo… pois faltavam fazer seis cadeiras. Perante este cenário e porque os meus pais já tinham feito a parte deles, comunico-lhes que me vou matricular na mesma, mas que não iria voltar para a Covilhã, já que pretendia arranjar trabalho, preferencialmente em Lisboa, para poder estar perto da namorada, com quem viria a casar em 2001.

Claro que essa procura de trabalho só aconteceu no fim desse verão, o último verão de férias grandes, que nunca eram as férias típicas dos estudantes pois, como já disse, eu e o meu irmão começámos muito cedo a ajudar os meus pais no negócio deles, os dias eram bastante puxados, mas não era por isso que as noites também não pareciam ter fim, corríamos todas as festas populares que aconteciam no nosso concelho e nos concelhos vizinhos, dia sim dia sim.

Aquela sesta de meia hora entre o fim do dia de trabalho e a hora de jantar fazia milagres!

Entretanto entramos num novo milénio e apesar de todas as profecias apocalípticas, sobretudo o famigerado bug do ano 2000, a verdade é que continuou tudo na mesma, eu respondia a anúncios, mandava candidaturas espontâneas, mas ainda nada de concreto tinha surgido. Até que em março de 2000 aceito integrar a equipa de uma empresa que vendia espaço publicitário em listas telefónicas – sem salário base, apenas ajudas de custo com a viatura própria e comissões com base nas vendas efetuadas. Não era o que queria, nem era bom no que fazia, mas encarei na altura aquele desafio como quando uns anos mais tarde encarei a corrida, não gostava propriamente daquilo, os poucos quilómetros que corria eram todos em esforço (tal como as poucas vendas que fazia), mas são esses momentos iniciais que podem, e ajudam, a definir até onde podes chegar.

Esses primeiros treinos no mercado de trabalho em Lisboa deram frutos, pois passado nem dois meses estava no processo de recrutamento para uma das muitas vagas que o El Corte Inglés tinha disponíveis, estava em marcha o processo que culminaria, em novembro de 2001, com a abertura do Grande Armazém de Lisboa.

Em junho de 2000 sou selecionado para integrar os quadros da Financeira ECI, uma empresa do grupo, e durante quase cinco anos fiz parte de uma equipa fantástica, eram dezenas de pessoas todas muito jovens (eram poucos os que tinham mais de 30 anos), com uma vontade incrível de construir um projeto do zero

E a verdade é que funcionou, muito bem mesmo.



Com tanta gente junta e tão nova, era natural que se começassem a criar grupos com os mais variados interesses; claro que rapidamente se juntou uma dúzia de artistas da bola para se começar o hábito semanal de um jogo de futebol de 5, mas a melhor recordação desportiva que tenho daqueles anos é o ténis. Nunca tinha jogado, um dia um colega convence-me a mim e a mais dois irmos trocar umas bolas no Jamor e a verdade é que ficámos todos agarrados. Durante cerca de 3 anos, íamos no mínimo duas vezes por semana ao Jamor, alugávamos dois courts por duas horas cada. Não interessava se estava muito frio, se era tarde (na altura fechavam às 22h) ou se tínhamos de ir muito cedo ao fim de semana para arranjar campo (na altura não aceitavam reservas). Sem o saber, estava ali alguma da disciplina que muitos anos mais tarde iria trazer para a corrida, pois sabia que se não fosse, ninguém o iria fazer por mim. Às vezes sinto saudades de jogar ténis e provavelmente até conseguiria arranjar companhia para uns jogos, mas a verdade é que poucos desportos nos dão a imbatível liberdade de escolha da corrida, de o fazermos em qualquer lugar, a qualquer hora, sem reservas, sem necessidade de terceiros, sem complicações.





As fotos deste episódio são todas do ano em que o Roger Federer veio ao Estoril Open. Como referi o ténis foi um desporto marcante nesta altura da minha vida e nem hesitei em comprar, pela primeira e única vez, bilhete geral do torneio, pois queria assistir a todos os jogos em Portugal do melhor jogador de sempre, um craque absoluto, um senhor.

Ganhou o torneio, infelizmente com pouco tempo de jogo (1h15), pois o Davydenko ressentiu-se de uma lesão na perna e teve de abandonar no segundo set, quando até liderava por 2-1, depois de um primeiro set a favor do Federer, mas apenas no tie-break. Foi uma pena, pois estava a ser um jogo do caraças.


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