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Episódio III – Universidade na Covilhã

Finalmente começam a deixar os atletas entrar para o local de partida, naquele caso concreto para os locais de partida, os chamados blocos divididos por tempos previstos de conclusão da prova. Claro que como fui muito cedo pensei, olha ao menos parto na frente, mas assim que vou entrar nesse primeiro bloco um dos seguranças da prova indica-me que sou “Mais60” e que a minha partida é “lá ao fundo” apontando com o dedo no sentido do Marquês de Pombal – como assim?! Relutantemente lá fui, andei, andei, fui passando pelos outros blocos, até que cheguei ao bloco “Mais60” – já me tinha questionado o que seria aquilo no dorsal.

Que deprimente, era um dos primeiros corredores a estar pronto para correr, pelo que obviamente me encontrei sozinho naquele bloco, em frente ao Teatro Tivoli e ao longe, a mais de 500 metros, estava a linha de partida, mesmo em frente ao Hard Rock Café, numa Avenida da Liberdade cortada ao trânsito. Era o último sábado do ano e ali estava eu, sentado na beira do passeio, novamente cheio de frio e a remoer que provavelmente não deveria estar ali, pois aquilo não era para mim.


Em junho de 1994 completo 18 anos e nesse verão pude fazer algo pelo qual esperava ansiosamente, tirar a carta de condução. Mesmo que só tenha tido carro um ano depois, este fator seria crucial para agravar a quase total ausência de desporto na minha vida durante muitos anos. Dois bons amigos que mantenho dos tempos da Universidade frequentemente brincam comigo, quando me perguntam sobre as minhas corridas e genuinamente espantados ouvem as distâncias que por vezes faço, seja em treinos e provas – é que, tal como eles fazem questão de me relembrar quase sempre que estamos juntos, eu na altura da Universidade, a partir do momento que tive carro (2.º ano do curso) não andava sequer 100 metros para ir ao café ou ter com alguém.

Pelo menos é o que eles dizem, acho que estão a exagerar, mas quando penso bem no assunto, se calhar não estão.


Comparar os cinco anos que passei pela Covilhã com os três anos que vivi em Viseu é o mesmo que me perguntarem se prefiro o inverno ou verão – a escolha será sempre a segunda opção.

Não é que não gostasse da Covilhã, mas o deslumbramento e a liberdade de viver fora de casa dos pais que a esmagadora maioria dos meus colegas de Universidade sentia, era algo que eu já vivera nos três anos de Secundário. Adicionalmente entrei apenas na Universidade na terceira fase de candidatura, pois o 12.º ano noturno deixou mossa na Matemática e consequente nota baixa na específica da disciplina, o que veio a limitar bastante as opções de candidatura ao ensino superior, facto que olimpicamente ignorei nas candidaturas da primeira e segunda fase. Nunca tendo sido um aluno brilhante, estava também longe de ser um mau aluno e a não entrada na Universidade estava a deixar-me bastante baralhado, tanto que em outubro estava convencido que iria ter uma espécie de ano sabático e que teria de decidir o que fazer nas candidaturas do próximo ano – felizmente o meu amigo Ricardo, que tinha entrado, na primeira fase, em Gestão na Universidade da Beira Interior (UBI), alerta-me no fim de outubro de 1994 que ainda existiam meia dúzia de vagas no curso dele e que se quisesse teria de lá ir candidatar-me diretamente a uma dessas vagas. E assim foi, lá entrei na UBI e pude dar continuidade aos estudos a par do meu amigo, com o qual compartilhava turmas desde o 6.º ano do ensino básico!... Muitos casamentos não duram tanto tempo.


Essa entrada tardia fez com que passasse ao lado de receções ao caloiro, praxes e afins, e tivesse construído muito menos conhecimentos, o que honestamente também não me preocupou, mas também fez com que nunca me sentisse verdadeiramente em casa na Covilhã.

Por último, na interrupção letiva da Páscoa desse primeiro ano de Universidade conheço a mãe dos meus filhos e no início do verão de 1995 começamos a namorar, com um pequeno pormenor: ela estudava em Lisboa e eu na Covilhã. Se nesse primeiro ano de Universidade se contam pelos dedos de uma mão os fins de semana que passei na Covilhã, nos restantes quatro anos ainda foram menos, o tempo na Universidade, e por consequência na Covilhã, foi mesmo o menor possível com vista a conseguir o diploma que me levasse a entrar no mundo do trabalho, algo que aconteceu ainda antes de acabar o curso.

Como disse no início deste episódio, eu era o gajo que ia tomar café ao fundo da rua e levava o carro. Nunca tive excesso de peso, mas claramente não estava em forma e a coisa só não era pior porque nunca fumei, tirando numa ou noutra noite de excessos etílicos.

Curiosamente quase todas as amizades que construí na Covilhã eram pessoas bastante ativas, muitos jogavam em equipas da Universidade, fosse no futebol de 11, no futebol de 5 ou no andebol, além de que alguns ainda jogavam ao fim de semana futebol federado nas distritais. Com o meu fantástico historial de desporto escolar, nem sequer procurei inscrever-me em nenhuma da oferta desportiva que na altura a Universidade colocava ao dispor dos estudantes.

Não faço ideia se na altura existia a equipa de Atletismo da Associação Académica da Universidade da Beira Interior, mas se soubesse o que sei hoje…

O que fazia então? Aquilo que durante muitos anos foi a única atividade física que fiz, um jogo de futebol de 5 com os amigos, uma vez por semana na maior parte das semanas duas vezes nas semanas com menos compromissos sociais (leia-se andar nos copos), jogos esses que podiam acontecer literalmente a qualquer hora, chegámos a fazer jogos às três da manhã!...

Não me recordo como (Ricardo, podes ajudar?) mas em determinado momento esse grupo de amigos formou uma equipa de futebol de 5 para formalizar a sua inscrição em torneios entre estudantes da Universidade, com o glorioso nome de UBICUDAMAMA! Ainda mais obscuro para mim é o facto de oficiosamente eu ter sido designado treinador da equipa – agora que escrevo isto julgo que tal se deveu ao facto de não jogar nada e nada perceber daquilo. Tanto assim que ainda hoje os mesmos que brincam comigo com a história de ir de carro para todo lado, gozam a bom gozar com a decisão que tive num torneio de mudar completamente a equipa no intervalo de um jogo em que ganhávamos confortavelmente, para entrar eu e outros jogadores com a minha qualidade o que fez o jogo ir para prolongamento e por fim para os penaltis, onde nem os craques nos safaram. Eu avisei que não percebia nada daquilo!



Relativamente a fotos, este episódio é miserável. Da altura de estudante universitário não tenho nada e ao contrário do que fiz para os primeiros dois episódios, não consegui passar na Covilhã para passar e fotografar os locais mais emblemáticos. Fica a miséria de uma foto sacada do Google... Agora pareço o Quarenta e dois na maioria dos posts no blog dele!


#corrida #saosilvestredelisboa #covilha #ubi #aaubi #universidadedabeirainterior #futebol

Cascata de Fervença

Vou partilhar histórias. De provas, claro, mas também de muitos treinos, até porque às vezes é nestes que surgem os melhores momentos, a solo ou com fantásticas companhias.

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