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Episódio II – Adolescência em Viseu

Estou em plena Praça dos Restauradores e como falta mais de hora e meia para a partida da São Silvestre de Lisboa de 2012, obviamente que ainda pouca gente chegou, o que faz amplificar a questão que não para de me martelar na cabeça: “Mas que raio estás aqui a fazer?”.

Felizmente andavam alguns miúdos a correr livremente junto ao pórtico de partida, iam começar a partir das 16h as três diferentes “provas” da São Silvestre da Pequenada e ver aquelas crianças todas contentes, sem mostras de desconforto ou frio, fez desaparecer definitivamente o pensamento de ir embora. Faltavam menos de noventa minutos para a “minha” partida.


Pista de atletismo Estádio do Fontelo em Viseu

Em setembro de 1991 inicia-se um período de quase três anos, um dos mais marcantes, pela positiva, da minha vida. Na impossibilidade de prosseguir o ensino secundário na Mêda, pelo facto de não existir oferta da área de estudos que pretendia (na altura a “Área C”, equivalente hoje às Ciências Socioeconómicas dos cursos científico-humanísticos), os meus pais fizeram o esforço de me colocar a estudar em Viseu, na Escola Secundária de Emídio Navarro, a “Escola Comercial e Industrial” – e em boa hora o fizeram.

Para todos aqueles que tiveram (têm) de continuar os estudos fora da sua terra, esse marco costuma coincidir com a entrada na Universidade e na (suposta) maioridade. Não foi o meu caso, e agora imaginem um miúdo com 15 anos acabados de fazer, apanhar-se longe dos pais durante toda a semana.

Tinha tudo para poder correr mal, certo?

Escola Emídio Navarro em Viseu

Felizmente fui parar ao sítio certo, com as pessoas certas. Na mesma altura e para a mesma escola foram o Ricardo (Faly, falarei muitas vezes dele aqui, afinal é o meu melhor amigo) e o Rui, sendo que o Ricardo e eu parece que nem tínhamos mudado de escola, visto que vínhamos na mesma turma desde o 6.º ano e ficámos em Viseu também na mesma turma! E o melhor é que este percurso académico em conjunto não iria acabar por aqui…

Quando eu falo em pessoas certas é porque não ficámos “ao Deus-dará”; eu e o Ricardo dormíamos num quarto alugado na Rua do Arco, nas traseiras da escola e de onde conseguíamos ouvir os toques de entrada e saída. Onde tomávamos as refeições era na casa de um casal, na Avenida Emídio Navarro, mesmo em frente ao mítico Café das Beiras, onde estavam também hospedados outros estudantes, dois dos quais também eram da nossa terra, dois primos e que nós já conhecíamos, o Jorge e o Paulo, pessoas que foram fundamentais para a nossa integração, tanto na escola, como sobretudo na cidade… Como o objetivo disto é falar maioritariamente de corrida não me vou alongar, mas digamos que foram anos muito bem vividos (estamos a falar dos anos de auge daquela que era a maior discoteca do País, a The Day After, quem a conheceu sabe do que estou a falar), com alguns excessos, mas que felizmente nunca tiveram consequências de maior – nunca chumbámos e com notas mais do que razoáveis, e nunca os nossos pais tiveram de lidar com qualquer problema, fosse na escola ou fora dela.

Desporto? Corrida? Sim para o primeiro e uma experiência inusitada para a segunda.

Na mudança para Viseu não pude dar continuidade ao futsal, não que fosse grande espingarda, que não era, mas não havia na nossa escola de Viseu a tradição de equipas participarem nos campeonatos de Desporto Escolar. Aliás o aspeto em particular do desporto era aquele em que a “nova” escola de Viseu ficava a perder claramente para a “nossa” escola da Mêda, o pavilhão era minúsculo e as aulas de Educação Física eram, quando aconteciam, de ginástica…

Todavia, surgiu uma nova paixão, influenciada por alguns colegas de turma e potenciada por um programa semanal na RTP2 – o basquetebol.

Os intervalos maiores e os furos eram passados junto a uma tabela, em jogos de 2-para-2 ou 3-para-3 e sempre que se conseguia em jogos “a sério” de 5-contra-5; aos sábados aquela meia hora do programa NBA Action eram vistos e gravados (VHS!) religiosamente para rever até à exaustão, com especial destaque para o segmento final do programa, o Top10 das melhores jogadas da semana! Lá andávamos nós na semana seguinte a tentar imitar o que os ídolos Michael Jordan, Larry Bird ou Magic Johnson faziam, na (provável) idade de ouro da NBA. Aliás, como esquecer aquela fantástica Dream Team que foi campeã nos Jogos Olímpicos de Barcelona 1992?

Quanto à corrida, o inusitado que referi surge no 11.º ano por desafio do professor de Educação Física, que conseguiu convencer alguns alunos a praticarem atletismo duas a três vezes por semana no Parque e Estádio do Fontelo. Não me perguntem pormenores pois aqui as memórias são vagas, mas se julgam que fui para o meio-fundo ou fundo, dado o que faço hoje em dia, desenganem-se… A minha escolha foi treinar… velocidade! Sim, velocidade e salto em comprimento, o rapazinho franzino, nada atlético, que comédia! E porquê estas escolhas? Ora pois claro, assim não me cansava tanto e sempre podia correr na pista do Fontelo…

Reforço muscular? Treino de técnica? Esqueçam, aliás poucas vezes via o professor e em alguns treinos, passadas as primeiras semanas, até só estava eu…. Obviamente não percebia se estava a evoluir alguma coisa, muito provavelmente não estava, e a machadada final naquilo aconteceu algures no segundo período letivo desse 11.º ano quando o professor achou que seria boa ideia irmos a uma espécie de meeting regional de atletismo que aconteceu em Canas de Senhorim. Resumindo muito a coisa, na primeira eliminatória dos 100m olho para os meus sete adversários e vejo tipos altos, atléticos, quase todos equipados a rigor, e claro que ficaram TODOS à minha frente – nunca mais fui aos treinos e pelo que me lembro “aquilo” nem teve continuidade. E mesmo que tivesse tido, não contassem comigo, naquele tempo no 12.º ano só tínhamos três disciplinas e para mais, por motivo de obras na escola, os que moravam mais perto ficaram em turmas noturnas…

Com 17 anos, tens carradas de tempo livre, não moras com os teus pais e a escola despachas em três horas logo a seguir ao jantar, então… TODOS OS DIAS SAIS À NOITE!!! R.I.P. corrida voltaremos a encontrar-nos daqui a 20 anos.



Novamente fotos atuais, de alguns locais em Viseu aqui referidos; A filhota correndo no Parque do Fontelo e eu no Café das Beiras brindando com o meu isotónico favorito.



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