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Episódio I – Infância na Mêda

Sábado, 29 de dezembro de 2012 - Ainda não são quatro da tarde quando saio da estação de metro dos Restauradores, em Lisboa. Estou a acabar de subir as escadas de acesso à rua e hesito, está frio e apesar das previsões não darem chuva, desconfio das nuvens cinzentas no céu. Claro que estar apenas vestido com uma t-shirt e uns calções não ajuda, saí de casa para fazer uma prova de atletismo, a minha primeira prova em mais de 20 anos.

Nunca o poderia imaginar, mas o que eu ainda não sabia era que apenas estava no início de uma viagem inesquecível e que, hoje, mais de 17.000 km depois, continua e não há outra igual.




Mas como cheguei ali?

Alguém que nunca gostou de correr (sim, é um cliché), pois correr ou era atrás de uma bola ou então a fugir de alguém, em miúdo, por norma do meu irmão, que apesar de mais novo do que eu, corria bem mais depressa (e mais longe).

Estamos a falar de um rapaz (o meu irmão) que foi campeão ibérico de corta-mato, escalão iniciados, em Zamora, Espanha, algures nos anos 80.

Na Mêda, a minha terra, então vila nos limites do distrito da Guarda quase a beijar Trás-os-Montes, a infância é uma memória tão distante, para mais quando a comparo com aquela que os meus filhos têm.

No inverno pouco mais havia que a escola e depois a ida para casa da minha avó paterna, onde eu e o meu irmão ficávamos até à hora de jantar. Fazíamos os trabalhos de casa sozinhos, rapidamente, pois depois queríamos ver televisão, quase sempre em castelhano na TVE (a televisão pública espanhola), pois talvez uma (a única?) vantagem que nós, os meninos do interior, tínhamos era o facto de podermos escolher entre quatro canais, os dois portugueses e os dois espanhóis.

Agora quando os dias começavam a ficar maiores e o tempo aquecia, primeiro timidamente e de maio em diante à bruta, as horas depois da escola eram as melhores: futebol de rua, na Rua D. Maria do Carmo, a rua do Patronato, nome porque ainda hoje é conhecido o Instituto Dona Maria do Carmo Faria Lacerda, uma instituição gerida pelas Irmãs Missionárias Reparadoras do Sagrado Coração de Jesus, sendo que uma das nossas balizas era o portão do Patronato. Nós morávamos numa casa anexa e pertença do Instituto e ali era o ponto de encontro, visto que quase todas as crianças da nossa terra passaram por aquela instituição, antes do ensino primário e mesmo depois, já que a catequese ocorria lá. Claro que ali se formaram amizades para a vida e todas as nossas aventuras começavam e acabavam ali.

Nas férias grandes de verão era a liberdade total, grupos de miúdos que andavam literalmente sozinhos durante todo o dia, passando brevemente em casa apenas para almoçar, em que para além do futebol, reinavam as bicicletas, o berlinde, os inícios de tarde a ver o KITT ou o MacGyver na versão espanhola, os gelados e sempre, mais, nunca chegava, futebol de rua, em todo o lado.

Correr? Ainda mais?


Com o fim do ensino primário, veio a mudança de casa, para um apartamento na avenida principal da terra, “a” Avenida (só quem é da nossa terra conhece a pergunta – vamos fazer uma Avenida?). Esse apartamento dista apenas 150 metros da casa antiga (que já não existe), mas foi passar para outra realidade, pois parece que mudámos de localidade. O centro nevrálgico das nossas brincadeiras transitou para o pequeno jardim contíguo ao edifício da Câmara Municipal, bem perto do comércio onde o meu pai foi funcionário durante alguns anos e de que em breve adquiriria o trespasse, um dos grandes marcos da nossa família e que permitiria um certo desafogo, também financeiro. Claro que vieram também as responsabilidades, pois a partir dos 13/14 anos comecei (e obviamente depois também o meu irmão) a ajudar os meus pais no negócio e essa altura coincidiu com as primeiras saídas à noite para “tomar café” – é engraçado que só já no fim da Universidade comecei a tomar café com alguma frequência e só nos últimos 7/8 anos passou a um hábito diário.


Correr? Já quase não o fazia, pois tinha tentado futebol no nosso Sporting Clube de Mêda, mas não tinha (tenho) jeito. No último ano do ensino básico, ainda fiz parte da equipa de futsal da escola que foi campeã distrital de desporto escolar, mas que depois teve uma passagem sem brilho pela fase final nacional, em Aveiro. Na bicicleta também estava a dar as últimas, pois invariavelmente dava uma queda quase todas as semanas (o destemor era total) e a machadada final foi a compra que o meu pai fez de uma scooter, uma Honda Vision de 80cc, importada de França (até tinha a luz amarela – aliás, sabem porque até meados dos anos 90, os carros com matrícula francesa tinham as luzes amarelas? Vão ao Google…) e que surpreendente e, aos olhos da sociedade de hoje, irresponsavelmente, entregou aos cuidados de dois miúdos com 15 e 13 anos. Que S-O-N-H-O!!!


Imagens atuais de cenários quase imutáveis. O modelo é o meu filho, mas com aquele pé canhoto podia ser perfeitamente o meu irmão, há 30 anos atrás.



#corrida #saosilvestredelisboa #meda #futebolderua #scmeda

Cascata de Fervença

Vou partilhar histórias. De provas, claro, mas também de muitos treinos, até porque às vezes é nestes que surgem os melhores momentos, a solo ou com fantásticas companhias.

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